Quais as dificuldades de um cronista esportivo?

 

       O torcedor, quase sempre, é passional e não concorda com a opinião do cronista quando é desfavorável ao seu time de coração. O cronista esportivo às vezes confunde a razão com o coração clubístico e prejudica a imparcialidade que deve mover a sua atuação. É Necessário dizer que há diferenças enormes na atuação do cronista-jornalista e cronista-radiofônico ou de televisão em face do tempo para o comentário: tempo para pensar antes de redigir a crônica em contraste com a rapidez da expressão oral. Lidar com paixões é muito difícil e exige constante exercício de inteligência. Para o torcedor ou dirigente comum o bom cronista é aquele que também torce pelo seu time.

 

Sempre quis ser cronista esportivo?

 

        Sempre quis ser jornalista e o destino me jogou primeiro no setor de esportes. Em 1952, jogando na seleção juvenil mineira, o então técnico Waldir Lau me viu triste e preocupado, porque eu precisava trabalhar para ajudar a família.  Waldir Lau era o chefe da seção de esportes da “Tribuna de Minas”, dirigido por Oswaldo Nobre, ex-presidente do América. Sabendo que eu tinha boa redação, que era muito ligado ao esporte (como nadador e jogador de basquete e de futebol), me convidou para trabalhar no jornal. Passei no teste , fui contratado e logo criei a “Esquina dos Aflitos”, coluna que levei depois para o “Correio do Dia”, “Correio da Tarde”, “O Diário” e “Jornal de Minas”, transformando as crônicas em livro. Estas crônicas eram transmitidas também pela Radio Jornal de Minas, na voz de Milton Colem, com quem trabalhei na TV Itacolomi, ao lado de Cleto Filho e Benedito Adami de Carvalho, sob o comando de José Vaz.

 

Como é ser cronista esportivo, advogado, professor e presidente?

 

 

 

 

 

 

 

         O jornalismo é a escola da vida. Pude conciliar estudos e trabalho. Quando fui defender a seleção mineira juvenil contra São Paulo, antes do jogo realizado na Alameda, o saudoso Hegler Brant Aleixo (que trabalhava nas Rádios Mineira e Guarani ) que me informou que eu tinha passado no vestibular da Faculdade de Direito da UFMG. É óbvio que fui o melhor em campo naquela partida. Graduei-me em 1957, ao lado de Ziraldo, Helio Garcia, Manoel Mendes Freitas e outros bons colegas. Fiz estágio no escritório do Dr. Humberto Barbi, com quem havia trabalhado na “Tribuna de Minas”. Dediquei-me ao Direito do Trabalho após 5 anos como Juiz Classista da 4ª  Junta de Conciliação e Julgamento. Em 1966 fui convidado por Honório Tomelin para dar aulas na UNA e lá estou até hoje,como professor titular de Direito do Trabalho.

 

Com qual expectativa você se filiou a AMCE?

 

        Eu me filiei à AMCE no dia em que fui admitido na “Tribuna de Minas”. Minha carteira levou a assinatura do saudoso radialista Ulpiano Chaves. Fui presidente da AMCE em três períodos. No primeiro, surgi como nome de conciliação após disputada eleição entre Waldir Lau e Januário Carneiro, que havia terminado em empate: 44 votos para cada candidato, um em branco e outro considerado nulo pelo saudoso Paulo Nunes Vieira, que presidia a assembleia geral, agitada e complicada. Anos depois, fui eleito e reeleito como candidato único. Deixei a presidência quando os companheiros me indicaram ao Governador Aureliano Chaves para dirigir a ADEMG, em 1975, lá ficando até 1982.

Acho que nasci para ser presidente. Fui presidente do América (quatro vezes) do Jornal de  Minas, da AMCE, da Diretoria de Esportes, do TJD e diversas federações, do Conselho de Julgamento dos  JIMIs (por mais de 20 anos), da ADEMG... e diretor do Nacional E.C., do Mackenzie, do Sindicato dos Jornalistas, da Associação Mineira de Imprensa, do  Sed-Lex, da FUME... Digo com o maior orgulho: minhas contas sempre foram rigorosamente prestadas e aprovadas, sem restrições.

Na AMCE, ajudei na compra da sede campestre da Ressaca e comprei a sala onde funcionava a sede central, na Rua São Paulo; ajudei na construção de quadras e diversas benfeitorias na sede da Ressaca; dirigi a reforma de diversos setores do Mineirão; comandei a construção do Mineirinho, desde a fundação até a inauguração, em 15 de março de 1980; na Secretaria Municipal de Esportes, tive participação em diversas obras e gostaria de ter colocado alambrado em todos os campos de várzea de Belo Horizonte; no América, tenho participado de sua história, com presença em grandes obras. Sem falsa modéstia, acho que tenho vocação para manter e ampliar o patrimônio das entidades de que participei - com uma certeza absoluta: nunca levei um alfinete para casa.

Curiosamente, tenho uma trajetória esportiva interessante: comecei a nadar no América, em 1940, quando tinha 7 anos de idade e fui convocado para a seleção mineira infanto-juvenil, que detinha a hegemonia nacional. Em 1950, com 17 anos, integrei a seleção mineira de basquete juvenil, vice-campeã em Curitiba, e integrei a seleção mineira de futebol juvenil, disputando o campeonato brasileiro em 1950, 1951 e 1953. Integrei a seleção mineira de futebol de salão de 1954 a 1960 e depois fui técnico da mesma seleção, sendo vice-campeão brasileiro em Fortaleza e Natal, em 1965 e 1967. Integrei a seleção da FUME. Fui chefe de diversas delegações mineiras e delegado em vários Congressos. E apitei diversas partidas de basquete, inclusive no Campeonato Brasileiro Feminino, em Niterói. Tenho um monte de medalhas...

A AMCE tinha um timaço de futebol. O cronista, na minha época de ouro, comentava e mostrava na prática que entendia de futebol. Eu me lembro da grande equipe mineira que derrotou os cronistas cariocas, aqui no Independência por 4 x 1,e depois em Álvaro Sales, no Rio de Janeiro, escalada pelo presidente Alvaro Wilson com Aldair Pinto no gol, Antonio Paulino, Tancredo Naves, Orlando José e Monkei na defesa; Mario Pataro, Aloísio Martins e Maurilio Costa no meio de campo;  Gibi, Milton Colen, Eu e Januário Carneiro no ataque.

No Rio, ganhamos de 3 x 2, com Ademir de Menezes jogando para eles.

 

 

Qual a sua visão hoje do futebol mineiro?

 

        Minha visão do futebol mineiro difícil explicar, em poucas linhas. Dois Golias (Atlético e Cruzeiro) e um Davi (América) dominando o Estado por um século, seculorum. Times tradicionais que não existem mais ou lutam para sobreviver, como Siderúrgica, Metalusina, Meridional, Sete de Setembro, Fabril de Lavras, Tupinambás, e Esporte de Juiz de Fora, Curvelo, Corinto, Ateneu, Cassimiro de Abreu, Olímpic, América e Vila do Carmo em Barbacena (onde o Andaraí é a maior expressão), Social, Flamengo de Varginha, Democrata e Bela Vista de Sete Lagoas, e tantos outros. A luta gloriosa do Vila Nova, Uberaba, Uberlândia, Guarani, Democrata de Valadares, América de Teófilo Otoni. Eu gostaria de ver a FMF patrocinando um campeonato com Minas Gerais dividida em várias regiões, times disputando torneios regionais para movimentar cidades, com jogos durante todo o ano, mas estou que nem Dom Quixote sem Sancho Pança.

 

Izabela Cardoso

Afonso Celso Raso

PERSONAGEM DE UMA HISTÓRIA