Conte-me um pouco de sua trajetória no rádio?

       Meu irmão mais velho, Januário Carneiro, fundou em 1952 a Rádio Itatiaia. Ele já era jornalista e narrador esportivo. Trabalhava na Rádio Guarani e era correspondente da Rádio Continental. Como meu pai morreu quando eu tinha 12 anos, Januário, como meu padrinho, me levou para trabalhar com ele na Rádio Itatiaia, que era na Rua Rio de Janeiro, em Belo Horizonte. Então, eu fui ser office boy dele; pagava conta, ia ao banco, descontava cheque. Logo depois, aprendi a ser operador de som, acompanhava o Januário nos jogos, ajudava a puxar fio, ia ao vestiário pegar escalação de time com o técnico, e comecei também a fazer plantão esportivo. Convivi com vários profissionais da época, pessoas que explicavam e me ensinavam. Como não havia faculdade, você precisava aprender com os companheiros que estavam a sua volta, e o Januário Carneiro tinha competência e era muito paciente para ensinar. Fui, durante muito tempo, do plantão esportivo, repórter, acompanhava a equipe da Itatiaia nos esportes, comecei a escrever e produzir o programa ”Rádio Esportes”, também lia o Rádio Esportes com outros companheiros, que era um programa diferente do que é hoje. Então passei para a direção artística da Itatiaia e por outros departamentos, como o comercial, só que nunca deixei de ser jornalista esportivo e sempre gostei de acompanhar o dia a dia do esporte. Hoje em dia tem-se facilidade de fazer contato com o exterior, mas antigamente, para fazer uma transmissão, era uma dificuldade muito grande, pois o Brasil era precário em termos de comunicação. As transmissões de rádio eram feitas através de linhas telefônicas, e precisava existir uma preparação. Completei 50 anos de atividade, e continuo fazendo com o mesmo entusiasmo.

 

Como é administrar uma rádio como a Itatiaia?

 

       A Itatiaia hoje não é só uma emissora de AM. Veio a internet, que, no primeiro momento, achamos que tiraria mais espaço, mas que, pelo contrário, acrescentou bastante.Estamos nos aplicativos do celular, no canal da Net, SKY, e isso aumentou demais nossa cobertura. O nosso cuidado é fazer o conteúdo da melhor maneira possível com toda credibilidade, algo que é sagrado aqui na Itatiaia.

 

Você é administrador, empresário e jornalista. Como conciliar as três funções?

 

 

 

 

 

 

 

        Uma coisa complementa a outra. Chego pela manhã na Itatiaia e sei o que vai acontecer. Tem uma rodada de futebol, jogo, entrevista coletiva, apresentação de um jogador. Existe um planejamento por trás de tudo isso. Como empresa, a Itatiaia tem uma rede de emissoras próprias do interior e afiliadas - perto de 70 -, que retransmitem o som da rádio. Hoje situamos como as cinco principais rádios do Brasil; uma rádio que começou pequena, em Nova Lima. Temos uma gratidão muito grande com o público que reconhece nosso trabalho em transmissões esportivas, jornalismo, e tudo isso faz parte do nosso dia a dia. Não somos ligados a nenhuma entidade política, religiosa, grupo econômico, nenhuma outra rede; a rádio decide a vida por ela mesma.

 

Qual a sua maior experiência como radialista esportivo?

 

        Não teria uma experiência especial. O que tem é uma sequência de fatos importantes na história da Itatiaia, que nos trouxe até aqui. É a primeira de Minas, fez Jogos Olímpicos, a primeira rádio a funcionar 24 horas por dia. Fizemos Copas do Mundo numa época em que não era tão fácil fazer. Cobertura de clubes mineiros, viagens para o exterior pelo Atlético, Cruzeiro, Seleção Brasileira. Nossa abrangência hoje é: vai um repórter para o Cruzeiro, um para o Atlético, outro para o América, um para a Federação, outro para a CBF. A nossa presença é muito marcante na cobertura diária. Normalmente, o repórter da Itatiaia é o primeiro a chegar, antes dos jogadores, e o último a sair. Essa vivência de cobertura esportiva e também do jornalismo é preservada com todo carinho, com investimento, recursos, e tem um suporte de patrocinadores, pois entregamos uma audiência muito boa para aquele que investe.

 

O que hoje no rádio existe ou não existe que havia antigamente?

 

       O celular já foi uma novidade, transmissão via satélite, que é outra novidade, pois você pode falar em qualquer ponto do mundo. A internet oferece informação na hora; o Google, para pegar informações; nossos arquivos sonoros... tudo isso faz um dia a dia baseado nos fatos reais, algo que precisa ser mostrado para o público. A tecnologia veio para implementar uma cobertura muito segura. Por outro lado, hoje tem uma história do futebol com treino fechado, não deixam o repórter ver o treino. Ele espera acabar para comentar o que não viu. O clube até hoje determina quem dará a entrevista coletiva.  Alguns anos atrás, no dia de jogo entre Atlético e Cruzeiro, a Itatiaia ia de manhã para a concentração do Atlético com Roberto Abras, e do Cruzeiro com o Pinguim. Eles conversavam um com o outro. Colocava o Toninho Cerezo para conversar com o Joãozinho; o Raul conversava com o Dario Peito de Aço. Acabava o jogo, entrava no vestiário e entrevistava os jogadores na banheira do Mineirão, e isso não prejudicava de maneira alguma o jogador, o treino, era uma convivência natural. As pessoas antes no futebol compreendiam melhor o papel da imprensa, que era de divulgar o espetáculo.  Hoje em dia não, é tudo fechado.

 

Existe alguém na rádio que você admire muito?

 

       Como não tínhamos escola de jornalismo, se aprendia muito com os nomes que faziam o rádio esportivo. Existem narradores, comentaristas famosos na história do rádio. O Januário Carneiro tinha um improviso, uma palavra perfeita, era muito reconhecido, até por fazer discursos na abertura das jornadas e pela descrição que fazia das partidas, dos jogadores. Jairo Anatólio Lima, na Rádio Inconfidência. Comentaristas que passaram na Itatiaia,como Osvaldo Faria, Jota Júnior, Vilibaldo Alves, Amilton Macedo, Waldir Rodrigues, pessoas aqui do Rádio Mineiro que eram ótimos profissionais. Fora daqui, as rádios do Rio. Oduvaldo Cozzi, Waldir Amaral, Pedro Luiz, da Rádio Bandeirantes de São Paulo. Edson Leite, Fiori Gigliotti, Mário Moraes, João Saldanha, esses eram professores daqueles que estavam iniciando. A Itatiaia também foi uma escola de muitos profissionais que passaram por aqui.

 

Qual é a origem do nome Itatiaia?

 

       Existia um cidadão que era técnico e fazia transmissores de rádio. Fabricava equipamento de baixa potência, pois não tinha estrutura para fazer grandes transmissores. Ele ia a uma cidade, montava uma rádio e depois vendia, e fez isso em alguns pontos do Brasil. Montou uma rádio em Nova Lima e colocou o nome de Itatiaia, provavelmente por causa do pico Itatiaia. Então, a Itatiaia veio batizada. Quando o Januário comprou a rádio, ela já estava no ar.

Onde começou sua história na AMCE? E o que ela representa na sua carreira profissional?

Antes não havia sindicato de jornalistas, profissionais de rádio e televisão. A AMCE é de 1939. Passaram pela AMCE grandes nomes. Ela concentrava a ideia de uma associação que defendesse os interesses daqueles que faziam comunicação esportiva. Era muito criteriosa para aceitar novos associados. Depois, fundou uma sede campestre no bairro Ressaca, onde os jornalistas tinham futebol aos domingos pela manhã, e, depois, iam para o estádio.  Teve uma grande participação no respeito que o jornalista esportivo adquiriu através dos anos. As credencias, o espaço no Mineirão, mais segurança. Sempre foi batalhadora, seus presidentes sempre tiveram essa preocupação de preservar a lisura da associação e faziam reuniões quando algum profissional era atingido.

 

Qual a sua opinião com relação à mulher no esporte?

 

       Muito bem-vinda. Antigamente, eles brincavam que mulher não podia ser repórter, pois precisava entrar no vestiário de jogador, mas, como hoje não entra mais, essa preocupação desapareceu. Tivemos aqui na Itatiaia a Nair Prata, que hoje é reitora da Universidade de Ouro Preto.  Tivemos presenças femininas no jornalismo esportivo. Hoje na Itatiaia a presença feminina é até a maioria. No jornalismo esportivo, ainda existe uma dificuldade de se captar mulheres que tenham a tendência desse tipo de jornalismo. Não existe nenhuma restrição, há ótimas figuras femininas na área esportiva.

 

Izabela Cardoso

Emanuel Carneiro - Itatiaia

PERSONAGEM DE UMA HISTÓRIA