Conte- me um pouco da sua história?

       A minha vida toda trabalhei dentro do jornal Estado de Minas. Nos Diários Associados, participei de programas da TV Alterosa, do Primeira Página, que era um telejornal pela manhã, parceria entre o EM e a Alterosa; além do site Superesportes. Transitei em várias áreas, mas dentro do próprio grupo. Antes de eu me formar, havia um curso dado pela Universidade de Navarra, da Espanha, que durante uma semana havia uma imersão dentro do jornal. Fui uma das selecionadas para fazer parte da segunda turma. Ao terminar o curso, você ia para uma editoria de seu interesse. O meu era só a de Esportes. Fiz jornalismo porque queria trabalhar com esporte desde muito nova. Estava sempre nas aulas de Educação Física na escola, participava de torneio de vôlei com o sonho de ser jogadora. Mas comecei a não crescer tanto, e minha altura não permitiu. Como amadora, jogava direto, levantava de madrugada para ver Olimpíada desde os 11, 12 anos. Me formei em 1997, quase 20 anos atrás. Fiz esse Curso de Novos Valores, quase todas as pessoas que fizeram foram chamadas para o jornal, e eu já fui para a editoria de Esportes em janeiro de 98. Comecei cobrindo a Copa Centenário de Futebol Amador, com 22, 23 anos. Em 2000 fui estudar inglês fora do país, e, no ano seguinte, abriu uma vaga no Esporte do EM e o Arnaldo Viana, um dos editores, pediu que eu retornasse ao jornal. Apareceu uma carta de denúncias contra a Federação Mineira de Futebol, e eu pedi para fazer a cobertura. Fomos a Brasília, acompanhamos o depoimento do Elmer Guilherme, presidente da FMF na época, e tudo cresceu muito, com a CPI do Futebol. Tive a parceria da Helen Lara, que estava no Diário da Tarde, nessa apuração. Em 2002, me tornei setorista do Atlético, 24 horas cobrindo o clube, até final de 2005. Depois, passei a fazer matérias especiais na redação, cobrindo as férias de algum setorista, até que, em 2008, o diretor de redação Josemar Gimenez me convidou para ser colunista do Esporte com a ida do Eduardo Almeida Reis para a editoria de Gerais. Uma coluna quase que diária, cinco vezes na semana. Menos no domingo e às quartas, que eram o Tostão. Em 2010, virei subeditora de Esportes, e a coluna passou a ser publicada às sextas-feiras.

 

Qual momento te marcou na sua carreira profissional até hoje?

 

       Foi quando cobri a Copa do Mundo em 2014. Sempre foi meu sonho. Tive contato com ex- jogadores que sempre admirei como o Hierro, ex-jogador  da Espanha; Jorge Campos, ex-goleiro do México. E outros momentos, como integrar a cobertura especial que o Em fez em 2001, na época do ataque terrorista às Torres Gêmeas, nos EUA. Entrevistei ex-combatentes que vivem em Minas Gerais e participaram da Segunda Guerra Mundial, como o pai do Antônio Melane, e foi muito interessante.

 

Você vê alguma diferença no jornalismo de antes para o de agora?

 

 

 

 

 

 

 

        Sim. Quando entrei no jornal, não tinha essa facilidade de internet. Era no telex, não havia celular, era complicado comunicar com as pessoas. Para transmitir uma matéria, o sistema no notebook era diferente, sem  Windows, funcionava em sistema DOS, por atalhos no teclado. Hoje essa rapidez no acesso à informação acaba sendo uma desvantagem na formação do jornalista. É só entrar na internet e pronto. Antes, era preciso pesquisar jogo, escalação do time, informações históricas por diversas fontes. Agora, o jornalista, precisa se policiar muito para não se acomodar. Mas antes era mais fácil entrevistar os jogadores. Como havia menos repórteres na cobertura dos times, você entrevistava quem queria, e fazia matérias mais legais. Hoje é preciso aprofundar nas pautas e nas notícias para não repetir o que todos estão falando.

 

Você tem uma pessoa como referencial na carreira?

 

        De texto é o Armando Nogueira. Também o acompanhei pela TV, em programas esportivos como na SporTV, mesas redondas na Band. Sempre admirei a maneira com que apresentava o ponto de vista dele. Não era ofensivo, mas sim poético ao criticar. Nós, como jornalistas, temos a responsabilidade de formar a opinião das pessoas, mas ao fazer uma crítica não podemos ser os donos da verdade. Sempre me espelhei nele e procurei seguir seu estilo.

 

O que você aconselharia aqueles que estão e os que vão entrar na profissão a fazer?

 

        O principal é o jornalista investir no conhecimento, na cultura dele, vocabulário, conhecimento geral. Porque as pessoas, atualmente, estão acostumadas com o imediato, olham um título e já criticam o texto a partir dele, antes mesmo de ler a matéria. Então, o compromisso do jornalista precisa ser com sua própria formação, de fazer um bom trabalho. Não querer se preocupar se será o mais popular das redes sociais, pois a credibilidade do jornalismo não se constrói através disso. Independentemente de ser homem ou mulher. É mais difícil ser mulher no esporte, pois, ainda é um meio machista. Uma convivência que ainda não é tão pacífica. Muitas pessoas acreditam que para falar de esporte, sobretudo na televisão, a mulher precisa ser bonitinha, mas o que importa é o conhecimento, informação. Agora, com o homem, ninguém preocupa se é bonitinho, e isso sempre me incomodou.

 

Nos dias de hoje como está o papel da mulher no jornalismo?

 

        Existe mais espaço que antes, mas não tem o espaço que deveria ter, em relação à grande quantidade de mulheres jornalistas. Acho bacana quando tem uma mulher em rádio, jornal, porque são veículos que levam em consideração o trabalho dela, não a sua estética. Vejo na ESPN a Camila Matoso, a Gabriela Moreira, são equiparadas e têm o mesmo espaço dos homens, pela competência delas. Mas ainda está longe de ser igualitário, pela quantidade de mulheres que já existe na área de esporte. A Dimara Oliveira que tem um pouco de tempo a mais que eu, tivemos que abrir portas, pois eram pouquíssimas naquela época. Ainda hoje não vemos tanta mulher em cargos mais diretivos, como colunistas ou comandando programas de televisão e rádio. Não acho que deva ser  imposto, tem de ser mesmo pela capacidade. Mas acredito que existam mulheres capacitadas para assumir postos mais importantes dentro do jornalismo esportivo.

 

Quando você se afiliou a AMCE? O que ela tem te ajudado na sua carreira?

 

         Acredito que comecei em 98, 99. Tenho todas as minhas carteiras da AMCE. É possível enxergar a mudança através do tempo. Uma associação que sempre precisamos ter como categoria, pois é um momento em que se questiona a necessidade de diploma, e nem todo estádio, como o Independência, tem estrutura para abrigar os jornalistas. Então, é uma associação que precisa de força, e os próprios associados precisam passar essa força, para que ela consiga marcar posição e nos representar em tudo o que for relativo ao jornalismo esportivo.

 

 

Izabela Cardoso

Kelen Cristina - Jornal Estado de Minas

PERSONAGEM DE UMA HISTÓRIA