HOMENAGEM A FELIPPE DRUMMOND

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40 anos

 

Sexta-feira, 29 de março. Não essa de 2019, mas a de 1979. Pra mim, um dia inesquecível. Começou ali, pra mim, uma nova vida. Foi o dia em que meu pai, Felippe Drummond, em quem me inspirei, morreu, Na minha mão. Fiz boca a boca, mas não adiantou nada. E tudo começou numa coincidência, pois no velório, entrei para o jornal. Fui contratado no cemitério.

29 de março de 1979 era uma quinta-feira. Estava vendo televisão, quando meu pai, que era da TV Itacolomi, chefe de reportagem, depois de ter sido repórter, o primeiro de televisão em Minas Gerais – aliás, ele nunca deixou de ser repórter, pois mesmo chefe ia pra rua fazer matérias –, e que também era do Diário da Tarde, chegou em casa mais cedo. Era por volta de 10 da noite.

Quando ouvi a porta abrindo, corri pra falar com ele. Corre, vem ver. Tá passando um show do “Noite Ilustrada”. Este era um cantor, um sambista, que ele adorava. Ele disse que não queria ver, mas sim conversar comigo.

O assunto, eu tinha acabado de passar no vestibular de Comunicação Social, na PUC. Queria me dar conselhos. O primeiro deles, que eu esquecesse do meu apelido de colégio e de futebol. A partir dali, eu seria Ivan Drummond. E falou que sonhava pra mim, que eu conseguisse um bom emprego e que achava que deveria seguir para o jornal, que era a essência máxima da profissão.

Disse isso e falou que estava cansado e que queria dormir mais cedo. Deitou-se. Continuei no quarto da televisão. Daí a pouco minha mãe me grita. Saio do quarto e escuto um ronco. Minha mãe grita: “Seu pai está passando mal, corre”. Entro no quarto e começo a cutucá-lo, mas ele não responde. Só escuto um ronco.

Fico apavorado. Lembro meu irmão, que tinha apenas cinco anos vendo aqui. Grito pra minha mãe e minha irmã, que já estão na porta do quarto, para tirá-lo dali. Mando minha mãe ligar pro Prontocor, que era perto de casa. Ela o faz. Em seguida, torno a gritar. “Liga pro tio Jairo”. Meu tio, que é médico.

Nada da ambulância do Prontocor chegar. “Faço massagem peitoral, mesmo sem saber. Boca a boca. Eis que meu tio chega e manda que continue com o boca a boca. Pede uma colher pra minha mãe. Com está na mão, diz que posso parar. Ele enfia a colher na boca do meu pai e puxa a língua. Sai um ar, barulhento. E meu tio dá a sentença: “Não adianta mais. Já está morto.”

Bate o desespero. Corro de um lado para o outro da casa, como minha irmã. E agora? O que vou fazer? Como vai ser dali em diante?

Minha mãe manda que eu comece a ligar para os amigos dele. Didimo, Mansur, Zé Vaz, Xoxó, Camilão, Hélio Fraga, Luiz Fernando, Gomide, Hélio Fraga, Cocenza, Túlio Berti, Washington, Roderto Drummond, Afonso de Souza, Plínio Barreto. Liga também pros parentes. “Ai meu deus. Agora é que as coisas vão piorar. Todo mundo a adora.” Mas o faço.

Daí a pouco minha vô chega em casa com meu avô. Chora e grita. “Meu Deus, me leva também. O que vou fazer sem o Felippe.” Meu avô a ampara. Tenta confortá-la. Chega minha tia, Cecília. Também não cabe dentro de si. E vêm os amigos, os primos, dele e meus. A casa está cheia. Tem gente do lado de fora do prédio, de tanta gente. No quarto, dois grandes amigos meus, Roberto e Renato Malta, são que vestem meu pai, para colocá-lo no caixão.

E Camilão, Camilo Teixeira da Costa, diretor dos Diários Associados, entra lá em casa, vai direto na minha mãe e diz: “O enterro dele é por minha conta.” Minha mãe tenta contestar, mas ele não aceita. “Não, era um dos meus melhores amigos. Não se preocupe com nada. Eu cuido de tudo.” E o fez.

Mas faria mais ainda. Foi uma noite terrível. Velório no Bonfim. Lotado. Tinha até governador. Aliás, este, Francelino Pereira, ficou lá o tempo quase todo e fez questão de carregar o caixão.

O velório vai se arrastar pela sexta-feira. Eram 10h, não me esqueço, quando Camilão chega. Vai direto pro caixão. De repente, chama a mim a e minha mãe. Nos leva para um canto e diz. “Olha, segunda-feira quero você e sua mãe lá no jornal. Vou mandar o carro do jornal buscá-los.” Se volta pra mim e continua. “Você passou no vestibular, não foi? E para comunicação, não é?” Respondo que sim. E ele: “Você começa a trabalha na segunda-feira mesmo. Já é funcionário do Estado de Minas. Quero alguém do Felippe comigo. Era meu amigo.”

E assim comecei a carreira profissional. Norteei pelo meu pai. Fui diagramado. Na chega ao jornal, naquela segunda-feira, o Roberto Drummond, que é primo, estava esperando. O Camilão mandou escolher o que queria fazer. Fui logo dizendo: “diagramador”. E ele: “Espera aí, não te ofereci nada ainda. Você pode ir pro parque gráfico, para a pesquisa, administração, garagem. Mas por que diagramação?”

Respondi de pronto: “tenho um amigo, o Estevão, filho do Afonso de Souza, é diagramador e ganha tão bem, que tem até carro.” Ele levantou-se da cadeira, me deu um abraço e disse aos berros: “É assim que eu gosto.” Chamou o Faísca (G. O. Simões) e disparou? “Ele é seu. Vai ser diagramador.”

Nunca tinha diagramado. Comecei a aprender ali, naquela segunda, com Walter Serrano, Estevão, Guerino, Julinho. E não é que no dia seguinte fiz uma capa do Diário da Tarde. O diagramador, o Toninho, tinha ficado doente e não foi ao jornal.

Pois daí a pouco, o Camilão irrompe na redação e me dá ouro abraço. “Sabia. Tinha de ser filho do Felippe. Tá no sangue”.

E assim, entrei para o jornal. De diagramador, para repórter de polícia. Arnaldo Viana, meu amigo, foi meu professor. Foram dois Prêmios Esso junto com Djalma Gomes, Wagner Seixas, Marco Antônio Brandão, Vargas Vilaça, João Gabriel. Rezende era o Editor. Em 85, as mortes nas delegacias mineiras. Em 87, Alan, um estofador que escapou da execução por policiais civis.

Depois repórter de Esportes. Sete edições dos Jogos Olímpicos, a partir de Barcelona’92. Uma Copa do Mundo e, no meio dessa, acho a maior matéria da minha vida: Hilda Furacão, uma história de três gerações de família, pois começa com meu pai, passa por Roberto, que a tornou conhecida, e eu a encontro, viva, morando num asilo em Buenos Aires.

E tudo começou com ele, meu pai, a quem devo tudo, pois foi ele quem abriu-me as portas.

 

Texto escrito por Ivan Drummond, 29/03/2019.

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